Saúde • 13:40h • 19 de junho de 2026
Relógio inteligente com IA identifica sinais de ansiedade antes mesmo da percepção do usuário
Pesquisadores da Unicamp desenvolveram uma tecnologia capaz de detectar estados de ansiedade com mais de 80% de precisão por meio de dados coletados por smartwatches. A ferramenta poderá ajudar no monitoramento precoce de condições de saúde e incentivar a busca por atendimento especializado
Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência SP | Foto: CPA Viva Bem/divulgação
Um relógio inteligente capaz de identificar sinais de ansiedade antes mesmo de a pessoa perceber o que está sentindo está sendo desenvolvido por pesquisadores do Centro de Pesquisa Aplicada Viva Bem: Inteligência Artificial para Saúde e Bem-Estar, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O projeto conta com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e da Samsung.
A tecnologia utiliza inteligência artificial para analisar sinais corporais captados por smartwatches e já alcançou mais de 80% de precisão na identificação de estados de ansiedade. Os resultados foram apresentados pelo professor Anderson Rocha, coordenador do centro de pesquisa, durante a FAPESP Week Londres, realizada entre os dias 2 e 4 de junho.
Segundo o pesquisador, a equipe desenvolveu uma técnica inicial já publicada em estudos científicos e trabalha agora em uma versão mais avançada, atualmente em avaliação pela Samsung, responsável pela plataforma de hardware utilizada no projeto.
O sistema analisa continuamente informações coletadas pelo relógio, como os dados do eletrocardiograma, que registra a atividade elétrica do coração, e da acelerometria, responsável por monitorar os movimentos do braço ao longo do dia. A combinação desses dados permite criar uma espécie de “assinatura digital” individual do usuário, que passa a ser interpretada pela inteligência artificial.
Para ensinar os algoritmos a reconhecer os padrões relacionados à ansiedade, os pesquisadores desenvolveram testes que provocam estresse de forma controlada. Em um dos experimentos, os participantes precisam resolver cálculos matemáticos mentalmente em apenas 30 segundos enquanto acompanham uma contagem regressiva exibida no próprio relógio.
De acordo com Rocha, a situação gera naturalmente um aumento da ansiedade, permitindo que os cientistas observem como o organismo reage e utilizem essas informações para treinar os modelos de inteligência artificial.
A proposta da tecnologia não é substituir profissionais de saúde nem realizar diagnósticos. O objetivo é funcionar como uma ferramenta preventiva. Caso o sistema detecte episódios frequentes de ansiedade, poderá enviar alertas ao usuário sugerindo a procura de um médico ou psicólogo para avaliação adequada.
A mesma abordagem está sendo estudada para o monitoramento de outras condições de saúde, como hipertensão, diabetes, doença de Parkinson e risco de quedas em idosos. A expectativa é que os relógios inteligentes atuem como aliados na identificação precoce de alterações físicas e comportamentais que possam indicar o surgimento de problemas de saúde.
Segundo os pesquisadores, o objetivo é utilizar os sinais captados pelos dispositivos para reconhecer os primeiros indícios de diferentes doenças e contribuir para a melhoria da qualidade de vida da população.
A tecnologia ainda passa por etapas de aperfeiçoamento e validação. Quando os resultados forem considerados suficientemente robustos, a equipe pretende solicitar autorização de órgãos reguladores, como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), para iniciar testes com usuários em situações reais.
IA também ajuda no combate à desinformação
Durante a mesma apresentação, Anderson Rocha destacou outro projeto desenvolvido pela equipe da Unicamp: o Horus, voltado à identificação de conteúdos falsificados produzidos por inteligência artificial.
A iniciativa reúne ferramentas capazes de detectar deepfakes, golpes por mensagens de SMS e WhatsApp, fraudes em artigos científicos da área biomédica e conteúdos relacionados a crimes como tráfico de crianças e exploração sexual infantil.
Uma das soluções criadas pelo laboratório para identificar manipulações em publicações científicas já é utilizada pelo Escritório de Integridade Científica dos Estados Unidos e está disponível como software de código aberto. Outra ferramenta de verificação de imagens é empregada por agências de checagem de fatos brasileiras e já foi usada na análise de registros visuais de conflitos internacionais.
Para os pesquisadores, tanto os projetos voltados à saúde quanto aqueles direcionados ao combate à desinformação compartilham um objetivo comum: fortalecer a confiança das pessoas em tecnologias desenvolvidas para promover bem-estar, segurança e qualidade de vida.
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