Saúde • 12:13h • 06 de junho de 2026
Risco cardíaco dobra para pacientes com doença de Chagas após cirurgia
Estudo é de pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP
Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência Brasil | Foto: Arquivo Âncora1
Pacientes com doença de Chagas que apresentam arritmias graves têm risco de mortalidade mais elevado após cirurgias cardíacas do que pessoas com outros tipos de doenças do coração. A conclusão faz parte de um estudo realizado por pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP.
A pesquisa revisou dados de pacientes com doença de Chagas atendidos no Hospital das Clínicas, em São Paulo, e identificou um cenário preocupante: o risco de morte após os procedimentos cirúrgicos é cerca de 2,4 vezes maior nesse grupo em comparação com pacientes de outras cardiopatias. Entre os portadores da doença de Chagas analisados, a mortalidade geral após as cirurgias chegou a 36%.
Segundo Rodrigo Melo Kulchetscki, um dos autores do estudo e doutorando em cardiologia pela Faculdade de Medicina da USP, os resultados mostram a necessidade de fortalecer o cuidado com esses pacientes, especialmente porque a maior parte deles é atendida pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Os pesquisadores destacam que o acompanhamento rigoroso da insuficiência cardíaca e de outras comorbidades após a alta hospitalar é fundamental. Para a equipe, os dados apontam a necessidade de protocolos específicos de monitoramento para pessoas com doença de Chagas.
O estudo indica que o aumento da mortalidade não está diretamente ligado às arritmias em si, mas principalmente a fatores não cardíacos relacionados à complexidade das cirurgias.
A doença de Chagas é causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi, transmitido principalmente pelo inseto barbeiro. A infecção pode provocar danos em órgãos como coração e intestino, levando a complicações graves ao longo dos anos.
No coração, as lesões podem comprometer o funcionamento do órgão e causar arritmias severas, potencialmente fatais. Em alguns casos, os pacientes passam por um procedimento chamado ablação por cateter, técnica utilizada para “queimar” as áreas lesionadas do coração e controlar as arritmias.
De acordo com os pesquisadores, as cirurgias em pacientes com Chagas costumam exigir acesso à parte externa do coração, considerada mais difícil. Esse tipo de intervenção foi necessário em quase 80% dos casos analisados. Em comparação, pacientes com cardiopatia isquêmica precisaram desse acesso em apenas 15% das cirurgias.
A maior complexidade do procedimento aumenta os riscos de complicações durante a operação e de instabilidade clínica no pós-operatório, o que ajuda a explicar os índices mais elevados de mortalidade.
O estudo acompanhou 378 procedimentos realizados em 288 pacientes no Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP entre 2011 e 2020. Os resultados foram publicados na revista científica The Lancet Regional Health – Americas.
Os pesquisadores também apontam limitações no estudo. Entre elas estão dificuldades para realizar acompanhamento completo de todos os pacientes, restrições orçamentárias que impediram alguns exames em todos os casos e diferenças nos protocolos de monitoramento após as cirurgias.
Segundo os autores, muitos pacientes vivem em regiões remotas e enfrentam barreiras socioeconômicas e logísticas para manter o acompanhamento médico a longo prazo, o que pode dificultar a identificação de complicações tardias.
Atualmente, a estimativa é de que cerca de 7 milhões de pessoas convivam com a doença de Chagas no mundo, enquanto outras 100 milhões vivem em áreas de risco. A doença registra entre 30 mil e 40 mil novos casos por ano, mas menos de 10% das pessoas infectadas receberam diagnóstico, geralmente apenas nos casos mais graves.
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