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Responsabilidade Social • 18:23h • 05 de setembro de 2026

“Só mais uma aposta”: tentativa de recuperar perdas pode alimentar ciclo de compulsão

Famílias brasileiras perderam R$ 62,5 bilhões com apostas em 2025; comportamento merece atenção quando jogo passa a comprometer dinheiro, relações e capacidade de parar

Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | via Assessoria | Foto: Arquivo/Âncora1

A tentativa de recuperar dinheiro perdido pode prender apostador em ciclo de compulsão
A tentativa de recuperar dinheiro perdido pode prender apostador em ciclo de compulsão

A tentativa de recuperar o dinheiro perdido pode se transformar em um dos mecanismos que mantêm uma pessoa presa às apostas online. Em 2025, as famílias brasileiras tiveram perda líquida estimada em R$ 62,5 bilhões com apostas esportivas e jogos online, segundo levantamento do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda dos Estados (Comsefaz), elaborado com dados do Banco Central. As transferências via Pix para o setor foram estimadas em aproximadamente R$ 351 bilhões.

A dimensão do mercado também apareceu durante a Copa do Mundo de 2026. Levantamento da Klavi, baseado em dados de Open Finance de uma amostra de 1,2 milhão de pessoas, apontou que a proporção de usuários que enviaram dinheiro para plataformas de apostas chegou a 34,8% durante a competição, ante 11% em maio. O valor médio enviado, que era de R$ 188 antes do Mundial, chegou a registrar pico de R$ 524 após uma partida da seleção brasileira.

Reflexos alcançam a saúde

Entre janeiro de 2018 e maio de 2025, o SUS registrou 10.553 atendimentos relacionados ao jogo patológico e a problemas associados a jogos e apostas, com crescimento de 104% no período analisado.

Para a psicóloga e neuropsicóloga Luanda Rosa, os registros não representam necessariamente todas as pessoas que enfrentam dificuldades, já que parte delas não procura atendimento público.

Perder pode aumentar a vontade de continuar apostando

Um dos mecanismos associados ao comportamento compulsivo é o chamado reforço intermitente ou variável. Como o resultado é imprevisível, permanece a expectativa de que a próxima tentativa poderá trazer a recompensa esperada.

Depois de um prejuízo, pode surgir ainda a chamada perseguição das perdas, conhecida como chasing losses. Nesse comportamento, a pessoa continua jogando ou aumenta os valores apostados para tentar recuperar o dinheiro perdido.

“A pessoa deixa de pensar apenas em ganhar e começa a sentir que precisa recuperar o prejuízo. Surge uma lógica perigosa: ‘se eu parar agora, perdi; se continuar, talvez consiga recuperar’. E a tentativa de reparar uma perda pode acabar produzindo perdas ainda maiores”, explica Luanda.

Compulsão não começa necessariamente com uma grande dívida

Ansiedade, solidão, tédio, conflitos familiares, frustrações e dificuldades financeiras também podem funcionar como gatilhos. A facilidade oferecida pelo celular reduz ainda o intervalo entre o impulso de apostar, a decisão e a transferência do dinheiro.

Algumas barreiras podem ajudar a aumentar esse tempo de decisão, como retirar formas de pagamento salvas, limitar valores disponíveis para transferências, desativar notificações promocionais e utilizar ferramentas de bloqueio ou autoexclusão.

Os sinais de alerta podem aparecer antes de uma dívida elevada. Tentar recuperar perdas repetidamente, esconder apostas, mentir sobre gastos, aumentar os valores jogados, utilizar dinheiro destinado a despesas básicas e continuar apostando apesar dos prejuízos são comportamentos que merecem atenção.

Quando procurar ajuda

Tentativas frustradas de parar, perda persistente de controle e prejuízos financeiros, familiares ou emocionais indicam a necessidade de buscar avaliação profissional. Segundo a especialista, a investigação deve considerar não apenas o comportamento de apostar, mas também saúde emocional, autonomia, funcionamento cotidiano, condições associadas e rede de apoio.

A recuperação também pode envolver consequências que permaneceram depois das apostas. Pesquisadores ligados ao Programa Ambulatorial do Jogo (PRO-AMJO), do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP, consideram fatores como dívidas, sofrimento emocional, relações familiares, autonomia e atividades de lazer na avaliação desse processo.

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