Ciência e Tecnologia • 15:05h • 30 de janeiro de 2026
Sem DNA, mas com vínculo: ovodoação avança e transforma a maternidade
Dados recentes mostram que o vínculo materno é construído na gestação e no cuidado, e não apenas na genética
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Coworkcom | Foto: Arquivo/Âncora1
O número de tratamentos com ovodoação cresceu 27,8% entre 2024 e 2025, segundo levantamento do Grupo Huntington, referência nacional em reprodução assistida. O avanço expressivo revela uma mudança silenciosa, porém profunda, na forma como muitas mulheres encaram a maternidade, cada vez menos associada exclusivamente ao DNA e mais conectada ao desejo, à gestação e ao vínculo construído no dia a dia.
Indicada para mulheres com baixa reserva ovariana, falência ovariana precoce, histórico de tratamentos oncológicos ou que iniciaram o projeto reprodutivo em idade mais avançada, a ovodoação ainda desperta dúvidas emocionais importantes. A mais recorrente delas é direta: o filho é realmente meu quando o óvulo é doado?
Para especialistas, a resposta é afirmativa em diferentes dimensões. De acordo com a médica Ana Paula Aquino, especialista em reprodução humana do Grupo Huntington, a maternidade não começa no óvulo, mas na decisão de gerar, gestar e cuidar. A mulher que engravida por ovodoação vivencia todas as transformações hormonais, físicas e emocionais da gravidez, experiências fundamentais para a construção do vínculo materno.
Na prática clínica, essas inseguranças costumam surgir antes do tratamento e diminuem ao longo da gestação. O corpo que recebe o embrião passa por mudanças profundas, produz os hormônios da gravidez, sente os movimentos do bebê e estabelece uma conexão contínua ainda no período intrauterino. A maternidade se consolida durante a gestação e segue sendo construída após o nascimento, no cuidado cotidiano.
Relatos públicos também ajudam a ampliar esse debate. A atriz Viviane Araújo já compartilhou sua experiência ao engravidar por ovodoação, descrevendo a maternidade como algo vivido plenamente desde a gestação até a relação diária com o filho. Do outro lado do processo, a atriz Yana Sardenberg tornou pública sua decisão de se tornar ovodoadora após congelar seus próprios óvulos, destacando o desejo de ajudar outras mulheres a realizarem o sonho de ser mãe.
Para a psicóloga Cássia Avelar, do Grupo Huntington, essas histórias ajudam a desconstruir a ideia de que o vínculo materno depende do DNA. Segundo ela, a parentalidade não é apenas um aspecto biológico, mas uma construção emocional, simbólica e relacional. É o desejo e a disponibilidade afetiva que definem o lugar do filho na família.
Como funciona a ovodoação
A ovodoação é um tratamento de reprodução assistida no qual uma mulher recebe óvulos doados de forma voluntária e anônima. Esses óvulos são fertilizados em laboratório e o embrião é transferido para o útero da paciente, que vivencia toda a gestação. A doadora não possui vínculo legal ou parental com o bebê, e o processo segue critérios médicos rigorosos, incluindo avaliações clínicas, genéticas e acompanhamento psicológico.
Para a mulher que engravida, isso significa viver a maternidade desde o início. É o corpo dela que sustenta a gravidez, produz os hormônios, nutre o bebê e constrói o vínculo, independentemente da origem genética do óvulo.
O crescimento da ovodoação indica que, para muitas mulheres, a maternidade vai além da herança biológica. Presença emocional, cuidado, disponibilidade afetiva e vínculo construído ao longo do tempo têm se mostrado centrais nessa experiência, permitindo que o sonho da maternidade encontre novos caminhos para se realizar.
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