Ciência e Tecnologia • 11:19h • 21 de setembro de 2026
Sensor criado na USP muda de azul para rosa quando alimento começa a perder a crocância
Tecnologia à base de amido identifica mudanças de umidade dentro da embalagem em segundos e pode abrir caminho para novos indicadores visuais de conservação
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Agência Fapesp | Foto: Arquivo/Âncora1
Abrir um pacote e descobrir que o biscoito perdeu a crocância pode parecer apenas uma questão de textura, mas a mudança revela algo importante sobre as condições em que o alimento foi armazenado. Pesquisadores da USP em São Carlos desenvolveram um pequeno sensor que permite acompanhar essa umidade pela cor, passando do azul para o rosa conforme aumenta a presença de vapor d'água dentro da embalagem.
A tecnologia foi desenvolvida no Instituto de Química de São Carlos (IQSC-USP) e testada inicialmente com biscoitos cream cracker, escolhidos justamente porque absorvem umidade e perdem rapidamente a textura característica quando armazenados em condições inadequadas.
Nos experimentos, a alteração de cor do sensor acompanhou o aumento da umidade e apresentou forte relação com a perda de crocância dos biscoitos. Os resultados da pesquisa, que recebeu apoio da Fapesp, foram publicados na revista científica Food Chemistry.
Azul quando seco, rosa quando úmido
O dispositivo é um pequeno cilindro poroso produzido à base de amido e acrescido de cloreto de cobalto. Quando o composto está seco, apresenta coloração azul. À medida que absorve água, torna-se rosa.
Essa resposta acontece em poucos segundos e pode ser percebida a olho nu. A proposta também permite que a variação das cores seja analisada pela câmera de um celular, dispensando equipamentos laboratoriais complexos para acompanhar as mudanças.
A estrutura porosa do material amplia sua superfície de contato com o ambiente interno da embalagem. Segundo Bianca Maniglia, professora do IQSC-USP e orientadora da pesquisa, essa característica permite que o sensor responda a diferentes condições, tanto em ambientes muito secos quanto naqueles com maior umidade.
Ideia resgatou o antigo "galinho do tempo"
A inspiração veio de um objeto que fez parte da casa de muitos brasileiros décadas atrás. Maniglia lembrou-se do "galinho do tempo", enfeite popular especialmente nos anos 1980 que mudava de cor de acordo com as condições de umidade do ambiente.
O princípio foi adaptado a um material conhecido como criogel. Para produzi-lo, o gel de amido é congelado e depois passa por liofilização, processo que remove a água preservando uma estrutura altamente porosa.
O resultado é um material capaz de interagir rapidamente com o ambiente ao redor. No caso dos testes com cream crackers, essa característica permitiu relacionar visualmente a mudança de umidade à alteração de textura dos alimentos.
Tecnologia ainda não pode encostar no alimento
Apesar dos resultados, o sensor ainda está em fase de pesquisa e existe uma limitação importante antes de qualquer aplicação comercial. O cloreto de cobalto presente no dispositivo é tóxico e não pode entrar em contato direto com os alimentos.
Por isso, uma eventual utilização exigiria adaptações nas embalagens para manter o sensor isolado do produto. Novos estudos também são necessários antes que a tecnologia possa chegar ao mercado.
A equipe já pesquisa alternativas com materiais de origem natural. Entre elas estão pigmentos provenientes da casca da jabuticaba, capazes de mudar de cor conforme variações de pH. Uma das possibilidades estudadas é utilizar esses compostos para indicar visualmente a deterioração de carnes.
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