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Cultura e Entretenimento • 17:38h • 08 de setembro de 2026

Spotify vai sinalizar artistas criados por IA enquanto 97% dos brasileiros não distinguem músicas artificiais

Novo selo chega em setembro em meio ao avanço de faixas geradas por inteligência artificial e amplia discussão sobre autoria, transparência e criatividade

Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Vitru Assessoria | Foto: Arquivo/Âncora1

Se uma música feita por IA emociona, importa saber quem criou? Spotify aposta que sim
Se uma música feita por IA emociona, importa saber quem criou? Spotify aposta que sim

O Spotify começará a exibir, a partir de meados de setembro, o selo “AI Persona” em determinados perfis para indicar quando a identidade apresentada ao público pode ter sido criada por inteligência artificial e não representar uma pessoa real. A mudança ocorre em um cenário no qual músicas totalmente produzidas por IA já se confundem com criações humanas: pesquisa da Deezer em parceria com a Ipsos aponta que 97% dos brasileiros participantes não conseguiram distinguir as duas origens.

O levantamento ouviu 9 mil pessoas em oito países. No Brasil, além da dificuldade de reconhecer uma faixa artificial apenas pela audição, 77% dos entrevistados disseram que músicas totalmente produzidas por IA deveriam ser claramente identificadas, enquanto 76% querem saber quando serviços de streaming recomendam esse tipo de conteúdo.

O avanço dessas ferramentas já aparece no volume de lançamentos. Em junho de 2026, faixas totalmente geradas por inteligência artificial chegaram a representar, no pico, mais de 50% das novas músicas enviadas diariamente à Deezer, com média de 90 mil novos registros por dia.

Se a emoção é humana, quem criou a música ainda importa?

Para Kevin Leyser, doutor em Educação, filósofo, psicólogo e coordenador de cursos de graduação da UNIASSELVI, a capacidade de uma música artificial provocar sentimentos não torna a experiência do ouvinte menos verdadeira. “A emoção que ela desperta importa, e importa muito. Se uma música gerada por inteligência artificial emociona alguém, essa emoção é genuinamente humana. Nenhum algoritmo torna falso o arrepio, a lembrança ou o consolo que uma canção desperta”, afirma.

A discussão sobre autoria, porém, envolve também as decisões tomadas durante a criação e a responsabilidade pelo conteúdo colocado em circulação. Além do futuro “AI Persona”, destinado à identidade apresentada como artista, o Spotify possui os chamados “AI Credits”, que permitem informar como a inteligência artificial participou da produção de uma música.

Para Leyser, esse cenário desloca parte do debate sobre autoria. Mais do que estabelecer uma divisão entre criação humana e artificial, torna-se necessário identificar quem tomou decisões, quais tecnologias participaram do processo e quem responde pelos efeitos daquela obra.

IA já entrou na cultura popular

A Copa do Mundo de 2026 mostrou a velocidade dessa transformação. A Deezer identificou mais de 180 faixas publicadas no Brasil em álbuns chamados “Copa do Mundo 2026”, das quais 71% foram classificadas como geradas por inteligência artificial. Globalmente, entre mais de 270 músicas intituladas “World Cup 2026”, mais de 70% haviam sido produzidas com IA.

Na avaliação do especialista, o avanço tecnológico não significa necessariamente o desaparecimento da criatividade humana, mas altera a maneira como ela pode ser compreendida. Pessoas, repertórios culturais, ferramentas digitais e sistemas de inteligência artificial passam a participar conjuntamente de processos de criação.

Transparência ganha peso quando o ouvido já não distingue

A dificuldade de reconhecer conteúdos sintéticos também coloca novos desafios para a alfabetização midiática. Se vozes, músicas, imagens e textos produzidos por sistemas generativos se tornam cada vez mais convincentes, identificar a origem apenas pelas características do conteúdo tende a ser insuficiente.

Nesse contexto, Leyser defende que o público considere não apenas se houve participação de inteligência artificial, mas como o conteúdo foi produzido, quem responde por ele, quais interesses orientam sua circulação e se houve transparência sobre o processo.

“A IA talvez torne cada vez mais difícil saber, apenas pela escuta, como uma música foi criada. Mas é justamente por isso que a autoria não perde importância. Ela muda de lugar: deixa de ser apenas a pergunta sobre quem fez uma obra e passa a envolver quem tomou decisões, quais relações tornaram aquela criação possível e quem responde por sua presença no mundo”, conclui.

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