Ciência e Tecnologia • 09:20h • 10 de junho de 2026
Tecnologia da USP pode revolucionar tratamento de doenças de pele
Tecnologia criada no interior de São Paulo utiliza moléculas de RNA para bloquear genes responsáveis pela inflamação e pode abrir caminho para terapias mais precisas contra doenças de pele e até vacinas contra o câncer
Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência SP | Foto: Arquivo Âncora1
Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), em Ribeirão Preto, estão desenvolvendo uma tecnologia inovadora que pode mudar a forma de tratar doenças de pele como psoríase, vitiligo e até alguns tipos de câncer. A estratégia utiliza nanopartículas capazes de transportar moléculas terapêuticas de RNA diretamente para as células afetadas, atuando de maneira precisa sobre os genes envolvidos no desenvolvimento dessas doenças.
Os resultados mais recentes da pesquisa foram apresentados durante a FAPESP Week Londres, evento que reúne cientistas brasileiros e internacionais para discutir avanços científicos e tecnológicos.
O trabalho é conduzido pelo laboratório NanoGeneSkin e integra as pesquisas do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Nanotecnologia Farmacêutica, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
Como funciona a nova tecnologia
A proposta utiliza moléculas conhecidas como RNA de interferência, capazes de bloquear a produção de proteínas associadas à inflamação e ao avanço de determinadas doenças.
Na prática, os pesquisadores identificam genes que estão excessivamente ativos e utilizam um RNA complementar para impedir que eles continuem produzindo substâncias prejudiciais ao organismo. Dessa forma, a inflamação é reduzida de maneira específica, sem afetar outras funções do corpo.
A técnica é considerada uma forma de medicina de precisão porque atua diretamente na origem molecular da doença, reduzindo a necessidade de tratamentos sistêmicos que costumam provocar mais efeitos colaterais.
Nanopartículas superam barreiras da pele
Um dos principais desafios desse tipo de tratamento é fazer com que as moléculas de RNA cheguem intactas às células-alvo. O RNA é uma substância extremamente sensível e pode ser rapidamente degradado pelo organismo.
Além disso, a pele funciona como uma barreira natural que dificulta a entrada de medicamentos.
Para superar esse obstáculo, os cientistas desenvolveram nanopartículas de cristais líquidos formadas por lipídios. Essas estruturas microscópicas protegem o material genético, facilitam sua penetração na pele e aumentam sua absorção pelas células.
Os estudos mostraram ainda que essas nanopartículas podem transportar simultaneamente diferentes tipos de RNA e até medicamentos anti-inflamatórios convencionais, ampliando as possibilidades terapêuticas.
Aplicação promissora para psoríase e vitiligo
A psoríase é uma doença inflamatória crônica que afeta milhões de pessoas em todo o mundo. Ela ocorre quando o sistema imunológico passa a atacar o próprio organismo, provocando lesões avermelhadas e descamação da pele.
Já o vitiligo é caracterizado pela destruição dos melanócitos, células responsáveis pela produção de melanina, causando a perda de pigmentação em diferentes regiões do corpo.
Segundo os pesquisadores, ambas as doenças apresentam genes específicos que permanecem excessivamente ativos, tornando-se alvos ideais para o silenciamento por RNA.
Os resultados obtidos em estudos laboratoriais e em modelos animais indicam que a tecnologia pode reduzir significativamente os processos inflamatórios envolvidos nessas condições.
Plataforma também pode ajudar no tratamento do câncer
As pesquisas não se limitam às doenças dermatológicas. O grupo também trabalha no desenvolvimento de nanopartículas capazes de transportar RNA mensageiro (mRNA), tecnologia semelhante à utilizada nas vacinas contra a Covid-19.
O objetivo é criar vacinas terapêuticas capazes de estimular o sistema imunológico a reconhecer e combater células tumorais.
Em testes realizados com animais, os pesquisadores observaram regressão ou interrupção do crescimento dos tumores após a imunização com formulações experimentais.
Próximo passo é transformar a descoberta em produto
Após duas décadas de pesquisas, o grupo já possui patentes relacionadas à tecnologia e trabalha no desenvolvimento de processos que permitam a produção em escala industrial.
Entre os avanços está a adaptação das formulações para técnicas que aumentam sua estabilidade e facilitam o armazenamento e a comercialização futura.
O interesse de empresas farmacêuticas pelo licenciamento da tecnologia já demonstra o potencial da descoberta. Agora, os pesquisadores concentram esforços para avançar nas etapas que poderão levar a inovação dos laboratórios para os pacientes, aproximando a ciência brasileira de novas opções terapêuticas para doenças que ainda apresentam desafios importantes de tratamento.
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