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Saúde • 09:15h • 02 de fevereiro de 2025

Teste da USP permite identificar infecção prévia por zika e pelos quatro sorotipos do vírus da dengue

Método desenvolvido na USP detecta e diferencia anticorpos induzidos pelos patógenos a partir de amostras de sangue; estratégia pode ser usada para orientar políticas públicas em saúde e avaliação da eficácia de vacinas contra a dengue

Agência SP | Foto: Divulgação

A pesquisa também contou com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Vacinas (INCTV).
A pesquisa também contou com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Vacinas (INCTV).

Pesquisadores brasileiros desenvolveram uma forma simples e rápida de identificar pessoas previamente expostas a cada um dos quatro sorotipos do vírus da dengue, bem como ao vírus zika. Trata-se de um teste imunoenzimático do tipo ELISA, plataforma amplamente utilizada em laboratórios de análises clínicas do país, passível de ser adaptado para outras tecnologias automatizadas e testes rápidos do tipo point of care.

O trabalho foi conduzido no Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP), em parceria com cientistas da Faculdade de Medicina (FM-USP) e da Universidade Federal do Oeste da Bahia (Ufob), estes liderados pelo professor Jaime Henrique Amorim. Os resultados foram publicados no Journal of Medical Virology.

A dengue é a arbovirose mais disseminada globalmente. É causada por um flavivírus que apresenta quatro sorotipos antigenicamente distintos (DENV 1, 2, 3 e 4) e que cocirculam com pelo menos outros nove vírus do mesmo grupo, entre eles o zika (ZIKV). As semelhanças compartilhadas entre os antígenos do DENV e do ZIKV levam a reações cruzadas e à redução da especificidade do diagnóstico sorológico.

Com o objetivo de tornar mais preciso o exame que detecta anticorpos presentes no sangue de pessoas previamente infectadas, mesmo aquelas sem sintomas aparentes, os pesquisadores utilizaram fragmentos de proteínas dos vírus, em particular a proteína do envelope viral (a camada mais externa do patógeno). Tal fragmento, denominado EDIII, está envolvido na ligação do vírus às células humanas.

Durante o estudo, financiado pela FAPESP por meio de seis projetos (16/20045-7, 22/10408-6, 23/02345-7, 21/05661-1, 20/08943-5 e 17/24769-2) e conduzido durante o doutorado de Samuel Santos Pereira no ICB-USP, o teste foi inicialmente validado com amostras de sangue de camundongos experimentalmente infectados com os vírus DENV e ZIKV.

Nessa etapa, ele mostrou-se capaz de diferenciar anticorpos específicos contra cada um dos patógenos e, além disso, diferenciou anticorpos gerados pelos quatro sorotipos do DENV. Em seguida, o teste foi validado com cerca de 650 amostras de soro sanguíneo recolhidas de pessoas em São Paulo durante a epidemia de zika no Brasil (2015-2017). Os resultados indicaram sensibilidade de 87,8%, que indica a capacidade de evitar resultados falso-negativos, e especificidade de 91,4%, que se traduz na capacidade de evitar falso-positivos.

“Também testamos 318 amostras de soro colhidas de pessoas saudáveis na cidade de Barreiras [oeste da Bahia, região endêmica para DENV e outros arbovírus], sem diagnóstico prévio de dengue, como forma de avaliar a capacidade de monitoramento do teste para anticorpos específicos gerados após exposição aos vírus”, conta Luís Carlos de Souza Ferreira, professor do ICB-USP e coordenador do trabalho.

Segundo o pesquisador, cerca de 65% das amostras reagiram com pelo menos um antígeno de dengue (88 apenas com o sorotipo 1 e 90 delas com mais de um tipo de DENV). Curiosamente, apenas três amostras foram reativas para ZIKV, indicando que esse patógeno não circula na região há alguns anos ou que os anticorpos específicos gerados após a infecção têm curta duração.

“Coletivamente, esses resultados mostram que temos uma ferramenta poderosa para monitorar a imunidade sorológica de qualquer pessoa exposta a esses vírus, particularmente em populações que vivem em áreas endêmicas para dengue e zika ou que tomaram ou pretendem tomar uma das vacinas disponíveis para a prevenção da dengue”, diz Ferreira.

Saúde pública

No Brasil, 21 mortes por dengue foram registradas nas primeiras semanas de 2025, dois terços delas no estado de São Paulo. O ressurgimento do sorotipo 3 do vírus no país após 17 anos tem preocupado especialistas, que temem o agravamento dos surtos (leia mais em: agencia.fapesp.br/53754).

De acordo com Ferreira, no caso de uma nova epidemia, o teste desenvolvido no ICB permitirá identificar indivíduos e populações sem imunidade contra os tipos de DENV circulantes e implementar medidas dirigidas de prevenção, seja para o combate ao vetor ou a aplicação de vacinas.

“Os anticorpos medidos no ensaio [imunoglobulinas G ou IgG] são, em grande parte, responsáveis pela imunidade protetora contra a doença, pois impedem a entrada do vírus em nossas células. Essa característica permite que o teste seja usado para avaliar o status imunológico de pessoas saudáveis, mas previamente expostas aos vírus, e aquelas imunizadas com uma das vacinas atualmente em uso no país. No caso do ZIKV, será possível testar a imunidade de pessoas em idade fértil e grávidas, principal grupo de risco, sem a preocupação de reatividade cruzada com anticorpos gerados após infecção pelos quatro sorotipos de DENV. Isso permite estabelecer medidas para evitar a infecção quando do ressurgimento do vírus zika no país”, acrescenta.

A pesquisa também contou com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Vacinas (INCTV).

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