Ciência e Tecnologia • 18:22h • 27 de maio de 2026
Transplante aos 80 anos mostra como medicina passou a enxergar idade de outra forma
Especialistas afirmam que avanços em cirurgias, medicamentos e avaliação clínica ampliaram acesso de idosos a procedimentos antes considerados inviáveis
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da Central Press | Foto: Arquivo/Âncora1
O transplante renal realizado em um paciente de 80 anos no Paraná passou a simbolizar uma mudança importante na forma como a medicina avalia idade e capacidade clínica para procedimentos complexos. Francisco Simeão se tornou o paciente mais idoso do estado a receber um transplante de rim, em um caso que especialistas apontam como reflexo direto da evolução dos critérios médicos, das técnicas cirúrgicas e dos tratamentos imunológicos nas últimas décadas.
O procedimento foi realizado no Hospital São Marcelino Champagnat, em Curitiba, após sete meses de diálise. Simeão apresentava apenas 9% da função renal quando recebeu o órgão da própria irmã, a médica pediatra Beth Casimiro, de 73 anos. O caso também marcou o primeiro transplante intervivos da instituição.
A história ocorre em um cenário de aumento da participação de idosos entre os pacientes transplantados no Brasil. Dados da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO) mostram que o país realizou 3.236 transplantes renais apenas no primeiro semestre de 2025, sendo que 22,5% envolveram pacientes com mais de 60 anos.
Por muitos anos, procedimentos desse tipo eram raros em idosos devido à combinação entre expectativa de vida reduzida, limitações técnicas e maior risco de complicações pós-operatórias. Hoje, porém, especialistas afirmam que a idade cronológica deixou de funcionar como barreira automática.
Francisco Simeão, de 80 anos, ao lado da esposa, das irmãs e do médico responsável pela cirurgia realizada no Hospital São Marcelino Champagnat, em Curitiba | Divulgação/Hospital São Marcelino Champagnat
Avaliação passou a considerar condição clínica
Segundo o nefrologista Rafael Piné, responsável pela cirurgia, a medicina passou a priorizar critérios biológicos e funcionais na avaliação dos pacientes. “No passado, a combinação entre diretrizes rigorosas e a escassez de órgãos impunha restrições etárias à realização de transplantes. O procedimento era pouco frequente em pacientes com mais de 70 anos devido a avaliações baseadas primariamente na expectativa de vida”, explica.
De acordo com o médico, o avanço da medicina permitiu que pacientes idosos com boa condição clínica passassem a ter acesso mais amplo aos transplantes. “A idade cronológica, isoladamente, não é mais um critério de exclusão. A indicação é feita de forma individualizada, considerando as condições biológicas, funcionais e clínicas do paciente”, afirma.
Novas técnicas ampliaram segurança dos procedimentos
Especialistas apontam que a evolução dos imunossupressores, dos métodos diagnósticos e das técnicas menos invasivas teve papel decisivo na ampliação desse acesso.
Segundo Piné, hoje é possível controlar riscos de rejeição e complicações com mais eficiência do que há duas décadas. “Se o paciente tem um coração forte, cognição preservada e suporte familiar, a idade cronológica torna-se um detalhe secundário. Além disso, novas técnicas cirúrgicas menos invasivas e imunossupressores mais modernos e ajustáveis permitem que o corpo de um octogenário receba o novo órgão com um risco de complicações drasticamente menor do que há 20 anos”, afirma.
O próprio histórico de Francisco Simeão ajudou na decisão médica. Empresário e ainda em atividade profissional, ele mantinha rotina considerada ativa antes mesmo do transplante. “Aos 80 anos, eu ainda tenho muita energia e não passa pela minha cabeça parar de trabalhar. Passar pela diálise foi um desafio, mas receber esse presente me deu uma nova chance. A idade é só um número na identidade quando temos vontade de viver e continuar produzindo”, afirma.
Doação entre irmãos marcou procedimento
O rim transplantado foi doado pela irmã mais nova do paciente, a médica pediatra Beth Casimiro, moradora de Cambé, no Paraná. Segundo ela, a decisão surgiu como forma de retribuição ao irmão, considerado referência dentro da família. “O Chico sempre foi o alicerce da família. Sempre tive a impressão de que eu devia um presente a essa altura para ele, só não esperava que fosse no dia do aniversário dele. Se eu podia, por que não fazer? Foi o presente mais inusitado que eu poderia dar”, afirma.
Para especialistas, casos como o de Simeão ajudam a ampliar o debate sobre envelhecimento, qualidade de vida e acesso a tratamentos complexos na terceira idade. O avanço da expectativa de vida da população brasileira também pressiona o sistema de saúde a rever antigos paradigmas relacionados à idade limite para determinados procedimentos.
Aviso legal
Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução, integral ou parcial, do conteúdo textual e das imagens deste site. Para mais informações sobre licenciamento de conteúdo, entre em contato conosco.
Últimas Notícias
As mais lidas do mês
Política
Lula ou Flávio Bolsonaro? Veja onde consultar propostas, histórico e informações antes de votar
Programas de governo em PDF, registros do Senado, despesas federais e plataformas de checagem permitem comparar os candidatos à Presidência com informações oficiais e documentos públicos