Responsabilidade Social • 11:23h • 23 de junho de 2026
Tráfico de animais silvestres tem aves como principais vítimas em São Paulo
Coleiro, canário-da-terra e trinca-ferro lideram a lista, com vendas ilegais que podem render centenas de milhares de reais
Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência SP | Foto: Pablo Jacob/Governo de São Paulo
Entre janeiro de 2023 e abril de 2026, cerca de 43 mil animais silvestres foram apreendidos pela Polícia Militar Ambiental em São Paulo. Desse total, aproximadamente 90% eram aves, evidenciando a forte atuação do tráfico ilegal sobre espécies de pássaros, especialmente aquelas conhecidas pelo canto.
Ao todo, foram registradas apreensões de 488 espécies diferentes. Além das aves, os casos envolveram répteis, como jabutis, jacarés e serpentes, mamíferos silvestres, incluindo saguis e jaguatiricas, e até espécies ameaçadas de extinção. Também foram encontrados animais exóticos não nativos do Brasil.
Segundo a Polícia Militar Ambiental, cerca de 80% das aves apreendidas são espécies de canto, muito valorizadas no mercado ilegal. Pássaros como trinca-ferro, curió, bicudo, azulão e coleiro estão entre os mais procurados por traficantes e compradores. Algumas aves chegam a alcançar valores extremamente elevados no comércio clandestino, alimentando esquemas ligados ao crime organizado.
O tráfico geralmente começa com a captura dos animais na natureza ou com a reprodução ilegal em cativeiro. Em muitos casos, os pássaros são levados para competições clandestinas de canto, onde recebem premiações que aumentam artificialmente seu valor de mercado. Depois, são vendidos de forma irregular, movimentando recursos que frequentemente passam por processos de lavagem de dinheiro.
Além do impacto ambiental, os animais sofrem com maus-tratos durante a captura, transporte e manutenção em cativeiro. Muitos não sobrevivem ao processo.
Maus-tratos e fraudes
Durante operações de fiscalização, uma das irregularidades mais comuns encontradas pelos policiais é a adulteração de anilhas, identificações oficiais utilizadas para comprovar a origem legal das aves. Em animais capturados na natureza, traficantes costumam provocar lesões nas patas para inserir anilhas ilegalmente e simular que o pássaro nasceu em criadouros autorizados.
As consequências para os animais são graves. Muitos chegam aos centros de triagem com deformidades, ferimentos permanentes e dificuldades para pousar ou se locomover.
Como funcionam as fiscalizações
As ações da Polícia Militar Ambiental têm origem em denúncias da população e em operações planejadas com base em análises de inteligência e cruzamento de dados. Informações de sistemas de monitoramento, investigações e registros de ocorrências ajudam a direcionar as fiscalizações.
Denúncias podem ser feitas pelo telefone 190, pelo Disque-Denúncia 181, pela Delegacia Eletrônica de Proteção Animal e por canais ambientais específicos disponíveis para a população.
O que diz a legislação
Capturar, manter em cativeiro, vender, comprar ou transportar animais silvestres sem autorização é crime ambiental. A legislação prevê pena de detenção e multa, com agravantes quando o crime envolve espécies ameaçadas, ocorre em áreas protegidas ou é praticado de forma profissional.
A compra de animais sem procedência legal, mesmo por pessoas que desejam apenas mantê-los em casa, contribui para sustentar a cadeia do tráfico de fauna silvestre.
Entre os animais frequentemente apreendidos estão também os jabutis, muitas vezes adquiridos com base em crenças populares sem comprovação científica relacionadas à saúde.
Reabilitação e retorno à natureza
Após as apreensões, os animais são encaminhados para centros especializados de triagem e reabilitação. Nesses locais, passam por avaliação veterinária, tratamento e processos de recuperação física e comportamental.
Muitos chegam debilitados após longos períodos em cativeiro, com perda de condicionamento físico e dificuldades para se alimentar ou interagir com indivíduos da mesma espécie. O trabalho das equipes busca devolver aos animais as condições necessárias para a vida livre.
Quando recuperados, eles podem ser devolvidos à natureza em áreas compatíveis com seu habitat de origem. Os que apresentam sequelas permanentes ou forte dependência humana são encaminhados para instituições autorizadas, como zoológicos e criadouros científicos.
O combate ao tráfico de animais silvestres depende tanto da fiscalização quanto da conscientização da população. Evitar a compra de animais sem origem legal e denunciar atividades suspeitas são medidas fundamentais para reduzir um dos crimes ambientais mais lucrativos do país e proteger a biodiversidade brasileira.
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