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Ciência e Tecnologia • 15:31h • 01 de setembro de 2026

USP desenvolve tecnologia que “silencia” genes ligados ao vitiligo e obtém repigmentação em animais

Pesquisa da USP combina nanopartículas, medicamento e RNAs capazes de silenciar genes envolvidos na resposta autoimune; tecnologia já tem pedido de patente depositado

Da Redação | Com informações da CFF | Foto: Divulgação

Nova estratégia contra vitiligo consegue repigmentar pele em testes com animais e mira estudos em humanos
Nova estratégia contra vitiligo consegue repigmentar pele em testes com animais e mira estudos em humanos

Uma estratégia desenvolvida por pesquisadoras da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da USP conseguiu reduzir a resposta imunológica associada ao vitiligo e promover repigmentação em camundongos. A tecnologia combina nanotecnologia, fármaco e RNAs silenciadores para atuar em diferentes mecanismos da doença, e o próximo passo pretendido pelos pesquisadores é avançar para testes em humanos.

O trabalho integra uma nova frente de investigação que tenta ir além da estabilização do vitiligo. Uma revisão publicada na Clinical Reviews in Allergy & Immunology discute abordagens capazes de controlar vias moleculares envolvidas na destruição dos melanócitos, células responsáveis pela produção de melanina e, consequentemente, pela pigmentação da pele, cabelos e olhos.

A proposta considera o vitiligo não apenas como uma reação autoimune isolada, mas também como uma dificuldade do organismo em restabelecer seu equilíbrio imunológico e interromper a destruição contínua dessas células. A condição afeta entre 0,5% e 2% da população mundial e, no Brasil, estima-se que mais de 1 milhão de pessoas convivam com ela.

Nanopartículas levam tratamento para camadas mais profundas da pele

Uma das dificuldades está em fazer as moléculas terapêuticas chegarem ao local onde precisam atuar. As nanopartículas estudadas funcionam como sistemas de transporte capazes de atravessar o estrato córneo, camada mais superficial da pele, e alcançar regiões mais profundas.

Essa plataforma também permite liberação controlada e prolongada das substâncias. Entre as estratégias pesquisadas estão anticorpos, pequenas moléculas, como os inibidores de Janus quinase, e terapias baseadas em RNA.

Foi justamente o RNA de silenciamento a linha explorada no doutorado da farmacêutica Ana Vitória Pupo, que resultou em uma tecnologia atualmente protegida por pedido de patente no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi).

A ideia é “desligar” parte do mecanismo que mantém a inflamação

Em determinadas doenças, alguns genes apresentam superexpressão e levam à produção elevada de moléculas inflamatórias. O RNA de silenciamento busca interferir nesse processo ao degradar o RNA mensageiro responsável por levar a informação genética utilizada na produção de determinada proteína.

O problema é que moléculas de RNA aplicadas isoladamente apresentam baixa penetração na pele e são rapidamente degradadas. Para contornar essa barreira, as pesquisadoras desenvolveram uma nanopartícula capaz de facilitar sua entrada.

“A incorporação simultânea de diferentes RNAs silenciadores e outros fármacos a um único sistema nanoestruturado pode viabilizar uma estratégia multialvo, permitindo controlar a resposta imune e estimular a repigmentação de forma concomitante”, explica Pupo.

Camundongos receberam tratamento durante 15 dias

Nos experimentos do doutorado, camundongos foram induzidos a desenvolver vitiligo e receberam durante 15 dias consecutivos nanopartículas carregadas com fármaco e RNAs silenciadores. Segundo os resultados ainda não publicados, houve atenuação da resposta imune citotóxica, restauração da autorregulação e repigmentação.

O resultado, porém, ainda é experimental. A professora Maria Vitória Bentley, da FCFRP, ressalta que a resposta encontrada em animais pode não se repetir da mesma maneira em seres humanos. “Embora os dados em modelo animal sejam promissores, trata-se de um sistema experimental. A resposta em humanos pode diferir.”

O avanço para estudos em pessoas será decisivo para saber se a estratégia poderá futuramente se transformar em uma opção de tratamento. Até lá, os resultados representam uma etapa de pesquisa, e não uma nova terapia contra o vitiligo já disponível aos pacientes.

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