Saúde • 09:54h • 02 de julho de 2026
Vacina da gripe: como são escolhidas as cepas do imunizante
Com rápida capacidade de mutação, vírus pode se transformar e exige atualização constante da vacina em uso pela população; rede de monitoramento da OMS engloba centenas de países
Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência SP | Foto: Governo de SP
Todos os anos, antes do início das campanhas de vacinação contra a gripe, cientistas de diversos países trabalham para identificar quais variantes do vírus influenza têm maior probabilidade de circular nas temporadas seguintes nos hemisférios Norte e Sul. A definição é resultado de um sistema internacional de vigilância coordenado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que reúne centenas de laboratórios em mais de 130 países e serve de base para a atualização das vacinas produzidas anualmente, como a versão trivalente fabricada pelo Instituto Butantan e distribuída pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Segundo a pesquisadora Isabela Carvalho Brcko, especialista em vírus respiratórios e pós-doutoranda do Centro para Vigilância Viral e Avaliação Sorológica (CeVIVAS) do Instituto Butantan, esse monitoramento contínuo transforma dados coletados em diferentes regiões do planeta na composição de milhões de doses capazes de proteger a população contra um vírus que está em constante mutação.
A necessidade desse acompanhamento é reforçada pelos números da OMS, que estima cerca de 1 bilhão de casos de gripe sazonal por ano no mundo, dos quais entre 3 milhões e 5 milhões evoluem para formas graves da doença.
Entre os vírus influenza que infectam seres humanos, os tipos A, B e C são os mais conhecidos, mas apenas os tipos A e B provocam epidemias sazonais. O influenza A é dividido em subtipos conforme a combinação das proteínas hemaglutinina (HA) e neuraminidase (NA). Atualmente, os subtipos A(H1N1) e A(H3N2) são os principais responsáveis pelos casos em humanos e, por isso, fazem parte da composição das vacinas.
Já o influenza B é classificado nas linhagens Victoria e Yamagata. Desde 2020, porém, não há registros da circulação da linhagem Yamagata, possivelmente devido às medidas sanitárias adotadas durante a pandemia de Covid-19. Com isso, a OMS recomenda atualmente apenas a inclusão da linhagem Victoria na vacina trivalente.
O principal desafio no combate ao influenza é sua elevada capacidade de sofrer mutações. Essas alterações ocorrem principalmente na hemaglutinina, proteína responsável por permitir que o vírus reconheça e infecte as células do sistema respiratório. À medida que essas mudanças se acumulam, o vírus consegue escapar parcialmente da resposta imunológica, tornando necessária a atualização anual das vacinas.
Nem todos os vírus evoluem na mesma velocidade. O subtipo A(H3N2), por exemplo, sofre mutações mais rapidamente que o A(H1N1), enquanto o influenza B apresenta alterações mais lentas. Também podem ocorrer mudanças mais profundas, conhecidas como rearranjos antigênicos, capazes de modificar significativamente a capacidade de transmissão e a gravidade da doença.
Subtítulo: Brasil participa da rede internacional que define as cepas da vacina
A vigilância global do influenza começou no fim da década de 1940 e atualmente é coordenada pelo Sistema Global de Vigilância e Resposta à Gripe (GISRS), da OMS. O Brasil integra essa rede por meio dos 27 Laboratórios Centrais de Saúde Pública (Lacens) e de três centros de referência credenciados: a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro; o Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo; e o Instituto Evandro Chagas, no Pará.
O monitoramento começa nas unidades sentinelas de saúde, responsáveis por coletar amostras de pacientes com síndrome gripal e síndrome respiratória aguda grave. Essas amostras seguem para os Lacens, que identificam os vírus circulantes. Posteriormente, parte do material é encaminhada aos centros de referência, onde são realizadas análises genéticas, antigênicas e testes de resistência viral.
Os resultados são compartilhados com o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), nos Estados Unidos, que reúne dados das Américas e os envia à OMS. Com informações também da Europa, Ásia e Oceania, especialistas analisam o comportamento global do vírus e definem quais cepas deverão compor as vacinas da temporada seguinte.
A seleção considera tanto os vírus mais frequentes quanto aqueles que apresentam maior capacidade de escapar da proteção conferida pelas vacinas em uso. A decisão é anunciada duas vezes por ano, cerca de seis meses antes das campanhas de vacinação, prazo necessário para que os fabricantes produzam os imunizantes.
Para a campanha de 2026 no hemisfério Sul, foram definidas as cepas A/Missouri/11/2025 (H1N1)pdm09, A/Singapura/GP20238/2024 (H3N2) e B/Áustria/1359417/2021, da linhagem Victoria. Já para o hemisfério Norte, foram escolhidas as cepas A/Missouri/11/2025 (H1N1)pdm09, A/Darwin/1454/2025 (H3N2) e B/Tóquio/EIS13-175/2025, também da linhagem Victoria.
Logo após o anúncio da OMS, o Instituto Butantan inicia a produção das vacinas destinadas aos dois hemisférios, fabricando anualmente mais de 80 milhões de doses.
A vacinação continua sendo a principal forma de prevenção contra casos graves, internações e mortes provocadas pelo influenza. Desde março de 2026, a vacina trivalente produzida pelo Butantan está disponível nas regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste. Nos estados da Região Norte, que apresentam sazonalidade diferente, é utilizada a formulação destinada ao hemisfério Norte.
Embora a imunização tenha como foco grupos prioritários, alguns estados ampliaram a vacinação para toda a população a partir dos seis meses de idade, diante da baixa cobertura vacinal registrada neste ano.
Além da produção de vacinas, o Instituto Butantan também contribui para a vigilância genômica do influenza por meio do CeVIVAS. Desde 2022, o centro realiza estudos que complementam a rede oficial da OMS, monitorando a evolução dos vírus circulantes e investigando como ocorre sua disseminação pelo país. Pesquisas já apontaram que a Região Sudeste desempenha papel central na propagação do influenza para outras regiões do Brasil e que o país também atua como fonte de disseminação do vírus para outros países da América do Sul.
O CeVIVAS também desenvolve pesquisas sobre a evolução e a circulação de outros vírus de importância para a saúde pública, como os da dengue e da Covid-19.
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