Ciência e Tecnologia • 13:30h • 09 de março de 2026
Veneno de sapo da Amazônia pode ajudar no combate a bactérias, aponta estudo do Butantan
Análises das proteínas do veneno do sapo também trouxeram novas respostas sobre a biologia do animal, ainda pouco estudado pela ciência
Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações de Agência SP | Foto: Carlos Jared
Um estudo conduzido pelo Instituto Butantan identificou proteínas presentes no veneno do sapo-cururu (Rhaebo guttatus), espécie nativa da Amazônia, e revelou peptídeos com potencial para combater bactérias. A pesquisa foi publicada na revista científica Toxicon e contou com a colaboração de equipes da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e do Centro de Estudos em Biomoléculas Aplicadas à Saúde da Fiocruz, em Rondônia, responsável por fornecer as amostras do veneno.
De acordo com o biomédico Daniel Pimenta, coordenador do estudo e atualmente pesquisador do Laboratório de Ecologia e Evolução do Butantan, a descoberta ganha importância diante do avanço da resistência antimicrobiana. Nesse cenário, a busca por novos compostos antibióticos na natureza surge como uma estratégia promissora para o desenvolvimento de medicamentos capazes de combater bactérias resistentes. A pesquisa foi desenvolvida no Laboratório de Bioquímica do instituto, onde o cientista atuou por quase duas décadas.
Nos sapos, o veneno fica armazenado em glândulas localizadas na pele e funciona como uma forma de defesa. Além de afastar predadores, a substância também protege o animal contra microrganismos presentes no ambiente, como vírus, bactérias e fungos. Por isso, as secreções cutâneas de anfíbios costumam reunir diferentes compostos com efeitos biológicos variados, incluindo propriedades antibacterianas e antivirais.
No estudo, diversos peptídeos identificados apresentaram potencial ação antimicrobiana. A conclusão foi obtida por meio de análises estruturais e funcionais realizadas in silico, com o uso de ferramentas computacionais que ajudam a prever a função biológica das moléculas.
Durante a investigação, os pesquisadores também identificaram, de forma inesperada, a presença da proteína BASP1 no veneno do animal. Até então, essa proteína não havia sido registrada em venenos de anuros — grupo que inclui sapos, rãs e pererecas — sendo normalmente encontrada no sistema nervoso de humanos e outros animais. A hipótese levantada pelos cientistas é que a BASP1 possa estar relacionada ao processo de contração e regeneração das glândulas da pele após a liberação do veneno, que provoca um processo inflamatório natural.
Além disso, foram identificadas proteínas associadas à contração muscular, ao estresse oxidativo e ao sistema imunológico do sapo-cururu. Para os pesquisadores, os resultados mostram que estudos desse tipo não apenas ajudam na busca por novas moléculas com potencial terapêutico, mas também ampliam o conhecimento sobre a biologia das espécies.
Para chegar a esses resultados, os cientistas realizaram uma análise proteômica do veneno — técnica que permite identificar proteínas presentes em misturas complexas. O primeiro passo foi transformar a secreção viscosa e amarelada em uma solução homogênea adequada para análise em laboratório. Em seguida, os componentes foram separados por cromatografia líquida e analisados em um espectrômetro de massas, equipamento que permite identificar individualmente as moléculas presentes na amostra.
Segundo Daniel Pimenta, o estudo também revelou que o veneno do Rhaebo guttatus apresenta semelhanças com o de outras espécies conhecidas como sapo-cururu, como o Rhinella icterica, encontrado no sudeste do Brasil, e o Rhinella marina, espécie introduzida na Austrália.
Os sapos conhecidos popularmente como cururu são originários da América do Sul, mas algumas espécies foram levadas para outros países, como Estados Unidos e regiões da Ásia, em tentativas de controlar pragas agrícolas.
Pesquisas anteriores com o Rhaebo guttatus, realizadas em 2011 em parceria com o pesquisador Carlos Jared, do Laboratório de Biologia Estrutural e Funcional do Butantan, já haviam revelado um comportamento incomum da espécie. O estudo mostrou que o animal é capaz de ejetar veneno pelas glândulas localizadas atrás dos olhos quando se sente ameaçado — comportamento que até então era considerado apenas um mito. A descoberta foi publicada na revista científica Amphibia-Reptilia e marcou a primeira descrição desse mecanismo na literatura científica.
A pesquisa contou com financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
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