Responsabilidade Social • 16:53h • 23 de março de 2026
Violência digital contra mulheres cresce e se organiza nas redes
Especialista alerta que ataques online deixaram de ser pontuais e passaram a formar redes estruturadas de ódio, com impactos diretos na vida real
Jornalista: Carolina Javera MTb 37.921 com informações da CUT | Foto: Arquivo Âncora1
A violência digital contra mulheres no Brasil tem se intensificado e chamado a atenção de autoridades e da sociedade. O que antes aparecia como ofensas isoladas nas redes sociais hoje se transformou em uma estrutura organizada, capaz de produzir, ampliar e normalizar o ódio em larga escala. Em março, Mês Internacional da Mulher, o debate ganha ainda mais força, destacando a urgência de enfrentar esse tipo de agressão que nasce no ambiente virtual, mas tem consequências concretas.
Em entrevista ao Portal CUT, a ativista e comunicadora Kriska Carvalho afirma que já existe compreensão sobre o problema, mas ainda faltam ações efetivas para conter sua expansão. Segundo ela, uma das principais medidas seria responsabilizar plataformas que permitem a disseminação de conteúdos misóginos sem punição.
A mudança no comportamento dos ataques aconteceu de forma gradual. Se antes as agressões eram menos organizadas e podiam ser contidas com denúncias, hoje há uma sensação de impunidade que incentiva a escalada da violência. “As pessoas percebem que podem ofender e ameaçar sem consequências, e isso vai aumentando”, explica.
Atualmente, segundo a ativista, praticamente toda mulher que se posiciona nas redes, especialmente militantes, se torna alvo de ataques. Esses episódios muitas vezes não partem de indivíduos isolados, mas de grupos organizados, com páginas e comunidades voltadas à exposição e perseguição de mulheres.
Casos de ataques coordenados também têm se tornado mais comuns, incluindo práticas como o doxing — divulgação de dados pessoais como endereço, telefone e documentos —, o que amplia o risco e o impacto das agressões. Mesmo diante de denúncias, muitas dessas páginas continuam ativas.
Outro ponto de preocupação é o perfil dos agressores. Há uma presença significativa de jovens que, durante a pandemia, passaram a ter na internet seu principal espaço de convivência. Nesse ambiente, discursos de ódio acabam ganhando visibilidade e engajamento, impulsionados por algoritmos e por grupos organizados, como comunidades misóginas que reforçam a desumanização das mulheres.
Para Kriska, essa violência não fica restrita ao digital. Ela aponta que o discurso de ódio contribui para práticas cada vez mais brutais fora das redes, reforçando um cenário já marcado por altos índices de violência de gênero.
Diante disso, a responsabilização das plataformas aparece como ponto central. A ativista defende que empresas que permitem conteúdos criminosos devem ser penalizadas. Além disso, ressalta a importância de educação, orientação familiar e mobilização coletiva para enfrentar o problema.
Apesar da visibilidade do tema, o sentimento entre muitas mulheres é de desgaste. A falta de respostas efetivas leva algumas a se afastarem das redes ou reduzirem sua participação, enquanto outras seguem resistindo em um ambiente cada vez mais hostil.
Para a especialista, o maior desafio não é identificar o problema, mas agir de forma concreta. Sem medidas efetivas, a tendência é que a violência digital continue crescendo, tornando-se ainda mais organizada e agressiva.
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