Variedades • 20:20h • 21 de janeiro de 2026
Zelofilia existe ou é só moda digital? Especialista questiona novo rótulo emocional
Especialista alerta para a banalização de diagnósticos e critica a transformação de emoções humanas em supostas patologias
Jornalista: Luis Potenza MTb 37.357 | Com informações da VH Assessoria | Foto: Arquivo/Âncora1
A cada novo ciclo das redes sociais, um sentimento humano comum parece ganhar um nome clínico, um rótulo sofisticado e, muitas vezes, uma aura de patologia. A chamada “zelofilia”, descrita informalmente como excitação sexual provocada pelo ciúme, é o exemplo mais recente desse movimento. O termo vem sendo tratado como fetiche ou condição psicológica em conteúdos digitais, apesar de não possuir respaldo científico ou reconhecimento formal na medicina e na psicologia.
Segundo o médico e terapeuta sexual João Borzino, o fenômeno revela menos sobre sexualidade e mais sobre uma tendência cultural preocupante. Para ele, a patologização de emoções cotidianas tem se tornado entretenimento, impulsionado por manchetes virais e conceitos frágeis. O ciúme, sentimento presente nas relações humanas desde sempre, passou a ser apresentado como algo exótico, quando na verdade faz parte do repertório emocional normal.
De acordo com Borzino, a chamada zelofilia não aparece em manuais diagnósticos reconhecidos internacionalmente, como o DSM-5 ou a CID-11. Não há critérios clínicos, estudos consistentes ou validação empírica que sustentem sua classificação como parafilia. O termo surgiu majoritariamente em fóruns online e espaços de psicologia pop, onde conceitos científicos são frequentemente simplificados ou distorcidos para gerar engajamento.
Para o médico, o problema central não está em discutir emoções intensas, mas em transformá-las automaticamente em diagnósticos. O ciúme, explica, é uma resposta emocional ligada à percepção de ameaça ao vínculo afetivo e possui bases biológicas e sociais claras. Tratá-lo como patologia, sem critério, empobrece a compreensão das relações humanas e fragiliza o próprio rigor científico.
A cultura do rótulo emocional
Borzino observa que há uma tendência crescente de converter qualquer desconforto em transtorno. Reações comuns passam a ser vistas como sinais clínicos, muitas vezes sem avaliação profissional. Nesse contexto, o diagnóstico deixa de ser resultado de análise cuidadosa e se torna uma identidade assumida por autodeclaração. Para o especialista, esse movimento substitui reflexão por slogans e transforma sofrimento emocional em capital simbólico.
Segundo ele, a mídia digital tem papel central nesse processo. Termos novos, estranhos e chamativos circulam com rapidez, criando a impressão de novidade científica. A lógica é simples: se algo tem nome, parece real. Se parece real, alguém se identifica. Em pouco tempo, o rótulo deixa de ser conceito e vira bandeira identitária, muitas vezes afastando as pessoas de uma compreensão mais madura de suas próprias emoções.
Rigor científico como responsabilidade
O médico reforça que reconhecer excessos emocionais ou padrões disfuncionais é importante, mas isso não autoriza a criação indiscriminada de categorias clínicas. Dar nome não é o mesmo que compreender. Para Borzino, transformar emoções humanas em diagnósticos sem base científica não promove cuidado, apenas confusão.
Ele defende a retomada do rigor intelectual e da maturidade emocional no debate sobre saúde mental. Isso passa por reconhecer que o desconforto faz parte do desenvolvimento humano e que emoções como o ciúme podem ser trabalhadas, elaboradas e compreendidas sem necessidade de rotulação patológica. A saúde mental, conclui, não se constrói evitando a dor, mas aprendendo a interpretá-la com responsabilidade e senso crítico.
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